Fim de tarde, Porto da Barra, Salvador –Bahia. Teria sido apenas mais um lindo entardecer, numa das mais belas vistas da Bahia. Mas, percebi que estava ali um rapaz sentado na mureta que separa a rua da praia à sombra de uma árvore. Deveria ter aproximadamente dezessete anos. Tinha a pele e os cabelos claros. Ele estava com o olhar fixo no horizonte. Ignoto1 a tudo e a todos que por ali passavam, parecia estar muito longe dali.
Em alguns momentos, olhava à sua volta, mas era como se nada conseguisse enxergar. Era como se tudo ao seu redor não passasse de vulto.
O mar estava calmo e o seu verde estonteante se misturava com o verde dos olhos daquele garoto. Por alguns momentos o observei. Não entendo o porquê de ele ter-me chamado tanto à atenção. Deve ter sido por estar a tanto tempo imóvel e em silêncio.
Quebrando, de súbito, aquela atitude inerte2, o rapaz retirou de seu bolso algo e colocou na palma de uma das mãos. Que objeto era aquele que conseguiu desfigurar sua face e deixá-lo ruborizado3? Era como se ali estivesse presente a razão de sua grande melancolia!
Consegui perceber que se tratava de uma corrente. Não tive como identificar se era preciosa ou não. Só entendi que ela trazia muita tristeza ao olhar daquele, de quem eu nem sabia o nome.
De repente, como quem tenta desesperadamente livrar-se de uma dor, ou de uma enfermidade, ele arremessou com muita força a pequena corrente ao mar. Neste instante, o verde de seus olhos ganhou uma coloração avermelhada e de longe pude notar a aura4 de tristeza que o envolvia. Algumas lágrimas rolaram de seu rosto. Permaneceu ali, estático, por mais alguns minutos. Em seguida, como se tentasse “levantar a poeira” e “dar a volta por cima”, levou as mãos ao rosto e, enxugando as lágrimas, levantou-se devagar para partir.
Mas, que dor era aquela? O que de tão trágico teria acontecido com aquele rapaz para deixá-lo tão amargurado? Para onde iria agora? Que rumo daria à sua vida a partir daquela atitude?
Pouco a pouco ele foi desaparecendo em meio às pessoas que passeavam na calçada e àquelas que voltavam do seu trabalho. Eu jamais conseguiria saber o real motivo de tão grande mistério!
Quase vinte e cinco anos se passaram, e aquela cena sempre voltava à minha mente...
Certo dia, estava eu veraneando na Ilha de Itaparica, quando fui apresentada por uns amigos a uma família que morava em Salvador (Os Cardoso). Logo percebi que eram pessoas agradáveis e de bem. Conversamos sobre muitas coisas. E durante os últimos dez dias de veraneio eu vi nascer uma bela amizade entre mim e Rafael (o filho mais velho de Dona Marcela Cardoso).
Você deve estar imaginando que era uma “amizade colorida”, que dali surgiu uma história de amor... Enganou-se. Acredite, pode existir uma amizade verdadeira entre um homem e uma mulher.
Rafael era um homem interessante. Deveria ter uns quarenta e cinco anos. E seus olhos me chamaram a atenção. Eram muito bonitos. A paisagem acentuou generosamente sua cor. Ele era um homem bastante comunicativo e extrovertido. Gostava de contar piadas, conversava sobre muitos assuntos. Era notadamente muito culto. Trabalhava numa multinacional e gostava muito do que fazia.
No entanto, ele deixava escapar por trás de seu jeito de agir uma pontinha de tristeza. Parecia que lhe faltava algo...
É, parece que eu deveria ter-me formado em Psicologia, pois fico tentando analisar a vida de todos que me cercam!
Numa noite de lua cheia, estávamos todos à beira do mar, conversando, cantando e comendo peixe assado. Achei Rafael muito calado – o que não era próprio dele -. Sentei mais perto e ofereci um refrigerante. Ele pegou e agradeceu. Puxei papo... Falei que estava uma linda noite, que o clima estava delicioso, que as férias estavam terminando. Foi um verdadeiro monólogo e nada conseguia mudar o seu clima de melancolia.
Resolvi, então, atacar de detetive. Perguntei o que estava acontecendo. Disse-lhe que poderia contar comigo para ajudá-lo, que falar sobre o problema minimizaria o seu peso...
Rafael olhou-me tristemente e disse que o passado insistia em incomodá-lo. E que aquela praia estava trazendo à tona sentimentos e emoções outrora vividos. Então eu – excelente psicóloga (há, há, há!) – afirmei que as coisas precisam ser bem resolvidas para que não nos incomodem mais. Perguntei-lhe o que havia acontecido de tão ruim para perturbá-lo tanto. Então, como um desabafo, ele começou a narrar sobre um triste período de sua vida:
- Quando eu tinha dezessete anos, conheci uma garota linda, doce, encantadora. Acho que foi amor à primeira vista! Ela era a mais sorridente, a mais inteligente; tinha cabelos longos e negros. Posso sentir ainda seu perfume que exalava por onde passasse. E o sorriso? Conseguia iluminar tudo quando sorria. Apaixonei-me instantaneamente. Ela tinha pais muito rígidos e quase não saía de casa. Mas, nas poucas ocasiões em que nos víamos, meu coração perdia o compasso, a adrenalina era bombeada dentro de mim. Era o êxtase total! Pedi que ela esperasse por mim, pois voltaria à sua cidade em breve para que pudéssemos consolidar nosso namoro. Eu estava disposto até a falar com os seus pais! Dois meses se passaram, eu guardei cada centavo de minha mesada e comprei aquele que seria o primeiro de muitos outros presentes que eu iria oferecer-lhe: uma linda correntinha de prata com um crucifixo pendurado. Não conseguia esconder tão grande era a minha ansiedade em poder rever aquela com quem eu sonhava todas as noites. Chegara o dia tão esperado. Viajei para Alagoinhas pensando nas palavras que iria pronunciar, como seria nosso reencontro...
Rafael respirou fundo e continuou:
– Mas, infelizmente, não se trata de uma novela, onde o final é sempre feliz. Ao chegar em Alagoinhas, fui logo procurar Jaqueline (esse era o seu nome). Todavia, para minha total desilusão, descobri que ela estava comprometida com o filho do prefeito e que em breve se casaria. Não pensei duas vezes, retornei no primeiro ônibus para Salvador. Não conseguia voltar para casa tamanha era a dor que sentia. Meu peito parecia que iria arrebentar! Parei no Porto da Barra, o Sol já estava desaparecendo no horizonte. Fiquei ali, sentado na mureta por algumas horas. Não conseguia entender... por que ela não tinha me esperado?... Quando lembrei, retirei do bolso de minha calça a corrente que havia comprado com tanto esforço para dar-lhe. Senti um misto de dor com ódio e arremessei aquele objeto no mar, como se aquela atitude fosse arrancar de meu peito a dor e a decepção que se alojaram em mim.
(Naquele momento recordei o fato que havia marcado minha vida há anos. Por ironia do destino, acabei conhecendo a história daquele garoto, que sempre voltava à minha lembrança.)
Rafael estava com o semblante pesado, seus olhos avermelhados, sua testa franzida. Então eu disse-lhe que não precisava continuar falando naquele assunto, já que lhe causava muita angústia ainda hoje. Contudo, ele afirmou que estava sendo bom falar, pois nunca havia dividido esses sentimentos com outra pessoa.
Perguntei-lhe se nunca tentara voltar até Alagoinhas para saber o porquê dela não tê-lo esperado. Quem sabe aquele namoro (e possível casamento) não fora obra da pressão familiar, ou por outra razão... Então ele voltou a explicar-me o que aconteceu:
- Depois de um ano eu retornei àquele lugar, pois os meses haviam se passado e meu coração permanecia dolorido e, ao mesmo tempo, apaixonado. Todavia, para aumentar meu desespero, ela tinha acabado de se casar. Retornei a Salvador com o coração dilacerado. E, como mecanismo de defesa, resolvi “mudar” meu jeito de ser, virar o “bam bam bam”5 da área, um verdadeiro “garanhão”6, “pegador”7. Todas as mulheres que caíram na minha rede eu peguei, não fiz distinção. Só queria preencher meu tempo e fazer de conta que havia superado aquela dor passada. Foi aí que eu comecei a trabalhar numa multinacional. O salário era ótimo, principalmente para um rapaz solteiro, com quase 20 anos. Logo consegui comprar meu carro, meu primeiro apartamento, festas, roupas boas... Foi em meio a toda essa agitação que nasceu Rick (meu primeiro filho). Sua mãe, que foi apenas um caso passageiro, mudou-se para o Rio de Janeiro e deixou o garoto para que eu criasse. Meses depois recebi a notícia que ela havia morrido. Uma bala perdida atingira sua cabeça. Que bomba! Mas a minha mãe acabou me ajudando muito!...
- Nosso Deus!... Que coisa mais triste! Isso tudo deve ter sido um verdadeiro turbilhão em sua cabeça. Não sei o que faria em sua situação! Mas você tem mais um casal de filhos. Você casou-se quando Rick ainda era pequeno?
- É. Eu acabei casando com Marina. Digamos que ela sempre fez parte de minha vida. Éramos vizinhos desde a infância. Ela sempre gostou de mim, mas eu só conseguia vê-la como minha amiga. Só que, quando Rick chegou, ela sempre me ajudou a cuidar dele. O levava para passear, dava carinho, presentes... e o garoto foi se apegando muito. Eu apenas uni o útil ao agradável. Sentia-me incapaz de amar alguém outra vez, ela era uma garota legal. Casamos um ano depois. E depois nasceram Bárbara e o caçula João Henrique.
- Então, você superou o antigo amor e tocou a vida pra frente?!
- Tentei levar uma vida mais ou menos normal. Só que, eu não consegui me desligar do passado. Confesso que sempre tenho notícias daquela garota do passado. Até hoje, sei cada passo que ela dá. Sei que tem quatro filhos, que dois já são universitários; tomei conhecimento que seu marido é um verdadeiro cafajeste8 e mulherengo9, que a faz sofrer muito. Mas eu não posso esquecer que muitos anos já passaram, tempo de se viver uma vida, de se gerar novas vidas, de se formar famílias e até de desfazê-las. Tempo de seguir e conhecer caminhos de idas, muitas vezes sem voltas, pois nem sempre é possível voltar e recomeçar, pois no caminho de volta teríamos que pisar e machucar muito as “flores” que plantamos na nossa caminhada até aqui. Eu sei que precisamos seguir em frente, mas sem esquecermos de dar um rumo novo às nossas vidas, e... quem sabe... um dia nossos destinos se cruzem novamente. Seria maravilhoso de novo poder roubar-lhe um beijo na sacristia da Igreja... Tê-la ao meu lado e fazê-la feliz!
Alessandra Bulhões, 04/08/2005.
[1] Ignorando.
[2] Parado.
[3] Com a face vermelha.
[4] Atmosfera imaterial que envolve certos seres.
[5] Gíria = namorador, galã.
[6] Idem 5.
[7] Idem 5.
[8] Indivíduo mau-caráter
[9] Muito dado a mulheres.
